Ana Mantêion
À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.
(Clarice Lispector - Água viva)
hoje passei diante de uma casa que me prendeu a atenção. Não era bonita, nem se esforçava para ser; não havia nela nada de espetacular, nenhuma promessa estética, nenhum ensaio do belo. era só uma casa. paredes simples, pintadas um dia, agora gastas pelo tempo, a tinta rendida ao sol. pela janela, a luz amarela acesa, formando uma resistência íntima, domiliciar, quase familiar. cruzei a rua e me sentei na calçada oposta. acendi o meu canelado, grosso e fino ao mesmo tempo, e fumei devagar, olhando a casa se decompor diante de mim. pensei no quanto de tempo ela havia atravessado. os passos que entraram e saíram, as alegrias silenciosas, as tristezas que se espalham pelos cômodos como umidade. até mesmo no carteiro pensei, que insistente, deve ter deixado cartas por anos, para alguém, para ninguém, para o nada. a casa suportava tudo, guardava tudo, e não dizia nada, notava-se seu desespero pelas rachaduras que mais pareciam entranhas de algo íntimo, tripas saindo para fora, um corpo ensanguentado pedindo socorro, mas sem ajuda, agonia em vão, sem nada. as janelas não eram apenas janelas, eram olhos cansados que espiavam o externo tentando buscar algo, algo que, naquela casa, nunca foi encontrado. observavam a rua, os carros, as pessoas apressadas, e talvez me observassem também, ali sentada, fumando com a lentidão de quem quer estender um instante comum até que ele comece a significar outra coisa. fiquei ali por mais tempo do que deveria. não havia nada a esperar, e ainda assim esperei. um vento leve levantava poeira da rua, trazia o som distante de um rádio ligado em alguma cozinha, alguém falava sobre o preço das coisas, o país, a inflação, a gasolina. frases partidas que chegavam até mim e se desfaziam antes de ganharem sentido completo. pensei que talvez dentro daquela casa também houvesse uma cozinha, com panelas penduradas, toalha plástica na mesa, e alguém ouvindo o mesmo programa, distraído, mexendo um café ou cortando legumes para o jantar que logo seria servido. ali poderia viver a senhora ramsey prometendo, ao seu filho, uma vida ao farol caso o tempo amanhã fosse firme; ou talvez clarissa dalloway, sempre dando festa para encobrir o silêncio. não sei de onde veio essa imagem, mas era insistente, mais ou menos se tivesse vivido ali uma vida que não era minha. talvez tenha sido assim que tudo começou para muita gente: uma imagem estranha que se encaixa no corpo como lembrança, uma vida possível que atropela a nossa sem pedir licença. olhei de novo para a fachada e cada rachadura parecia mais funda do que antes, mais viva, percebi que a casa me devolvia o olhar. não era um espelho, mas sim algo que observa em silêncio, sem prometer respostas, dando, talvez, julgamentos, mas sempre na presença pesada do silêncio. senti que eu também estava sendo lida; lida pela luz acesa, pela janela entreaberta, pelo chão gasto da calçada. havia uma comunicação muda, lembrando a pessoas que compartilham um segredo antigo. o tempo ali não passava, ou passava de um modo diferente, invisível. carros vinham e iam, mas tudo parecia contido dentro daquele pequeno perímetro entre mim e a casa. pensei que se eu me levantasse e fosse embora, nada mudaria, ela continuaria ali, resistente, imóvel, acumulando os dias feito quem junta papéis antigos numa gaveta. mas, ao mesmo tempo, havia algo nela que me puxava, e não me refiro a beleza e nem nostalgia, penso que seja um tipo de verdade sem adorno, uma permanência que desafia o esquecimento por mania, por força do hábito. de repente, senti que alguém poderia abrir a porta. uma figura comum, sem importância, com passos hesitantes, saída de um sonho antigo. esperei esse movimento. a maçaneta girou devagar, sem pressa, e uma senhora apareceu. vestia uma bata clara, o tecido parecia confortável, era elegante, pendendo dos ombros de forma displicente. trazia nos dedos, também, um cigarro aceso, que tremia levemente cada vez que ela inspirava. a fumaça subia reta, depois se desmanchava no ar frio da tarde. agora, além dos olhos das flores brancas e pequeninas que mais pareciam pupilas, eu estava sob o seu olhar. ela não parecia surpresa com a minha presença. me olhou de relance, um olhar curto, sem curiosidade nem desconfiança, desses que se dão a quem se vê todos os dias, há quem reconhece ou conhece há anos. acendeu outro fósforo, o primeiro havia falhado, e tragou fundo, o peito abrindo num movimento antigo, repetido muitas vezes e manteve-se encostada ao batente da porta, de pé, imóvel, com o corpo entregue à rotina de quem fuma sempre no mesmo lugar, me dando a visão contrária da que eu tinha. seu cigarro queimava aos poucos, a brasa acesa iluminava a ponta dos dedos finos, enrugados, sem anéis. um cachorro pequeno apareceu atrás dela, farejando o chão, depois deitou na soleira, num silêncio familiar. senti que havia ali uma coreografia muito antiga: ela, a porta entreaberta, o cigarro, o cachorro, tudo no seu devido lugar, nenhum elemento sobrando, exceto por mim. pensei em dizer algo, mas não disse. havia entre nós uma espécie de acordo tácito implícito: cada uma permaneceria no seu canto, observando a outra com uma atenção contida. o tempo estendeu-se entre a minha fumaça e a dela, duas linhas paralelas desenhando o ar da rua. por um instante, tive a impressão de que aquilo já havia acontecido antes, muitas vezes, sempre igual.
a senhora permaneceu por mais algum tempo na soleira, tragando em intervalos precisos, o olhar perdido em algum ponto da rua que não era o meu. os cabelos brancos presos num coque frouxo, alguns fios escapando e dançando no vento. havia uma dignidade silenciosa em sua maneira de portar-se, não chamo de altivez, mas uma firmeza tranquila, herdada de quem já viu os dias se repetirem incontáveis vezes e estava bem com o fato de que o tempo é o tempo, inconvenientemente igual em um certo momento da vida. os dedos que seguravam o cigarro tremiam de leve, sem fragilidade aparente; tremor de hábito, não de fraqueza, gostei de perceber nela hábitos, uma coreografia sistemática do que fosse. de repente, ela falou, a voz baixa, rouca, arranhada por anos de fumo e conversas no portão. perguntou se eu era parente dos antigos donos. neguei com a cabeça. sorriu de lado, um sorriso curto, sem dentes à mostra, contou que havia trabalhado como professora a vida inteira, que aquela era a casa da irmã mais velha, morta há mais de dez anos. vinha às tardes, dizia, para “arejar a memória”, expressão dita sem peso, como quem fala sobre abrir janelas, lustrar móveis, deixar a luz entrar. enquanto ela falava, percebi que sua presença não preenchia o espaço, ela o reativava. cada palavra reabria frestas, memórias, coisas já vistas. falou dos vestidos de festa que costurava até tarde por diversão, da luz sempre acesa, do portão que rangia. nenhum lamento, nenhuma nostalgia lacrimosa. apenas fatos que iam se empilhando dando a imagem de retalhos sobre uma mesa antiga. ela apagou o cigarro na parede externa, foi um gesto decidido, quase cerimonial, e lançou a bituca num canto da calçada. me olhou por um segundo mais demorado, e nesse segundo, algo se deslocou dentro de mim. não havia nada de extraordinário naquele olhar, nenhuma revelação grandiosa, mas senti um arrepio sutil, uma vertigem. uma parte minha, que eu não sabia estar à espreita, se reconheceu nela. os cabelos brancos, a roupa, o cigarro entre os dedos, a tarde imóvel, tudo conspirava numa cena que parecia cotidiana, quase chata, irretocável. e, no entanto, percebi com espanto que encarava o destino. não o destino romanesco dos livros, mas o tecido miúdo, invisível, que costura os dias até que um rosto qualquer se torne espelho. lá estava ela, em meados de julho, de pé na porta, e lá estava eu, sentada na calçada, notando que éramos duas versões de uma mesma mulher, separadas apenas pelo tempo.

