Autópsia
Por um lado, é um quarto do qual nunca posso sair, talvez terrível por isso.
Ao mesmo tempo, um lugar composto inteiramente de entradas.(Anne Carson - Nox)
Perto desses dias, passei pela perícia dos corpos mortos e constatei que estava viva, apenas apodrecida por dentro. Eu sou alguém desimportante, nunca fui importante para ninguém, seja para minha amiga E. que pulava amarelinha comigo nas ruas do bairro em morávamos ou para minha mãe, a quem busquei por seu amor em todo canto do mundo e só encontrei mais pedaços da fronteira de carne que sempre existiu entre nós e que nunca conseguimos dissolver. Minha autópsia está marcada para às sete da manhã, e estou deitada na maca desde ontem ao anoitecer. Não sei bem o que me matou desta vez, mas foi algo que veio desenfreado, sem rumo, com impacto, belicismo, explosão de vermelho sangrento e mutilador que desconfio que tenham sido palavras. Autópsia é um termo que historiadores utilizam para designar o ver por si mesmo, o testemunho direto de dados ou acontecimentos pelo próprio historiador, uma forma de afirmar autoridade sobre aquilo que se narra. Recusar essa autorização também constitui um gesto de poder. Heródoto, por exemplo, evita cuidadosamente afirmar que viu uma fênix, ave que surgiria apenas a cada quinhentos anos, ainda que mencione as mesmas tradições registradas por Hecateu de Mileto. Prefere introduzir esse tipo de relato com expressões equivalentes a dizem que, como o on dit ou o dicitur.
Nesta noite em que morri, meu cachorro entrou em fúria. Permaneceu assim, latindo, rosnando, encarando, dia e noite. Ia até a porta, voltava à janela, recusava-se a deitar. Conta-se que, no dia do meu funeral, a viúva de um vizinho levou o animal à igreja. Fanny caminhou direto até a frente da Igreja de São João, ergueu-se com as patas apoiadas na borda do caixão e, no instante em que captou meu cheiro pelo olfato, sua raiva cessou.
Não ser nada, não é, afinal, o fato mais satisfatório de todos?”, pergunta um cachorro em Flush, de Virginia Woolf. Fico pensando qual seria o cheiro do nada. Seria o cheiro da autópsia
Minha morte é tão banal que se torna fútil. Morri já tantas vezes que nem sei qual morte deveria narrar, se a primeira ou a última, mas em todos os meus fins, assim como os começos e meios, está envolvida, fatalmente, a figura de minha mãe.
Dizem que comecei a morrer ainda na infância. Não há registro preciso e não posso afirmar, pois não vi. Ou vi e não sou capaz de sustentar o que vi. Lembro, ou invento, de um quintal. A terra dura, o plano irregular do terreno que formava um pequeno relevo, lembrando um morro pequeno que para chegar em casa, era preciso subir. Nós, as crianças, tínhamos o costume de descer daquela rampa, chamarei assim, com placas eleitorais quando era época, de jogar nossas bonecas, as vezes de rolar molhadas até a pele ralar-se em sangue e casca. Eu errava sempre no mesmo lugar e acabava machucada, mas com ausência da lembrança dolorosa do impacto. Dizem que eu ria, não me lembro do riso e muito menos da dor, apenas do erro repetido, como se desde então meu corpo já soubesse falhar.
A autópsia é, também, abrir para ver. Mas o que se abre quando o objeto é a própria memória? Não há cavidade estável, apenas deslocamentos. Dizem que minha mãe me amava à sua maneira. É o que dizem das mães quando não se pode provar o contrário. Não tenho evidência direta desse amor, apenas vestígios: um prato posto, uma roupa dobrada, o silêncio. O silêncio sobretudo. Não posso testemunhar o que não foi dito. Se eu disser minha mãe nunca me amou, isso seria autópsia ou invenção? Se eu disser dizem que ela me amava, isso me absolve?
A médica que virá às sete não perguntará nada disso. Ela não vai querer saber do quintal, nem da rampa, nem das placas eleitorais, nem da minha insistência em cair sempre no mesmo ponto. Vai procurar causas mais estáveis, mais aceitáveis, tais quais falência, ruptura, colapso. Palavras que não titubeiam diante de si. Eu também poderia escolher uma dessas. Dizer foi o coração. Foi o sistema nervoso. Foi uma insuficiência qualquer. Há sempre uma palavra disponível para encerrar um corpo. Mas o que me matou não cabe nesses termos, ou cabe mal. Dizem que foram palavras. Dizem que certas frases, repetidas ao longo dos anos, criam uma espécie de infiltração. Não entram de uma vez. Não explodem. Elas se depositam. Primeiro, não doem. Depois, passam a ocupar espaço. Por fim, substituem alguma coisa vital, embora não se saiba exatamente o quê. Não vi isso acontecer. Não posso afirmar eu estava lá, eu ouvi, eu senti no momento exato da perfuração. O que tenho são restos, uma entonação, um olhar desviado, a ausência de resposta quando a resposta era necessária. E, sobretudo, a repetição. A repetição é sempre suspeita. Ela funciona sendo prova indireta, mas também sendo fabricação bélica daquilo que entorpece a ferida.
Dizem que minha mãe me chamava pelo nome sem me olhar. Dizem que isso não significa nada. Dizem que significa tudo. Na autópsia, procuram-se lesões visíveis. Algo que possa ser apontado com o dedo, medido, descrito em relatório. Mas o meu corpo, se ainda é meu, não oferece esse tipo de colaboração. Ele não se abre em evidências, apenas em suposições, hipóteses e contradições. Talvez por isso tenham marcado minha autópsia enquanto ainda respiro. Há uma urgência em me fixar antes que eu desapareça de vez ou, pior, antes que eu comece a falar com demasiada certeza. Falar com certeza é perigoso, muitas pessoas sabem disso, Heródoto sabia disso. Ele preferia dizer dizem que. Preferia manter a distância. Não por ignorância, mas por método. A distância protege o narrador. Eu não tenho essa proteção. Estou deitada dentro do que relato. Eu sou o que relato. A maca é fria. Já me acostumei. O corpo aprende rápido quando não há alternativa. O cheiro também mudou. Não é exatamente o da morte, porque a morte, quando chega inteira, encerra qualquer processo. O que há aqui é anterior a isso. É um cheiro de coisa que não terminou de morrer, um cheiro de quase. Penso que o quase seja pior do que o bom ou o ruim, do que a vida ou a morte. O quase nunca sera nada alem de quase. A palavra quase carrega esse incômodo porque já nasce incompleta. Ela vem do latim quasi, que significa “como se”, “tal como”, “por assim dizer”. Não é afirmação, é aproximação. No latim, quam (comparativo de intensidade, “tão quanto”) + si (“se”) formam essa ideia de algo que não é, mas se coloca na borda do que poderia ser. Um “como se fosse” que nunca se cumpre. Por isso o “quase” é mais inquietante do que o bom ou o ruim, a vida ou a morte, ele não fecha sentido. O bom e o ruim ainda são estados, a vida e a morte, limites. O “quase” é suspensão, uma promessa que não se realiza, um ato interrompido antes de virar ato.
Minha mãe e eu vivemos no quase.
A primeira coisa que aprendi sobre minha mãe foi que ela sabia desaparecer sem sair de casa. Não era um abandono visível. Ela continuava ali, na cozinha, dobrando roupas, passando o pano úmido sobre a mesa, mas havia momentos em que seu rosto se tornava inacessível e eu olhasse para alguém através de um vidro espesso. Eu falava, às vezes insistia, repetia seu nome, e ela respondia com exatidão suficiente para cumprir a função de mãe, mas não para me alcançar, não para ser, de fato, mãe. Durante muito tempo, pensei que o problema fosse meu. Que eu não sabia chamar direito, que havia uma entonação correta que eu ainda não tinha aprendido. Passei a observá-la com ar de estudante, o tempo de pausa antes de responder, o modo que seus olhos se desviavam ligeiramente para a esquerda quando não queria continuar uma conversa, a maneira quase imperceptível com que suspirava ao ser interrompida. Eu me tornei hábil em antecipar seus silêncios. Na escola, diziam que eu era uma criança independente. Eu não chorava quando me machucava, não pedia ajuda, não insistia quando me negavam alguma coisa. Havia nisso uma espécie de elogio que me confundia. Eu sabia que aquilo que chamavam de independência era, na verdade, uma forma de economia. Minha mãe, por sua vez, parecia satisfeita com essa versão de mim. Às vezes, porém, algo falhava nesse arranjo silencioso. Lembro de uma noite em particular, eu devia ter oito ou nove anos, em que não consegui dormir. Havia um barulho constante vindo da rua, uma música distante, repetitiva, e aquilo me deixava inquieta. Levantei e fui até a porta do quarto dela. A luz estava acesa. Eu não bati na porta. Fiquei ali parada por um tempo que não sei medir, observando a linha de luz sob a porta. Havia um impulso muito claro de entrar, de dizer simplesmente não estou conseguindo dormir, mas algo me impediu. Não era medo. Era a certeza de que, ao abrir aquela porta, eu encontraria minha mãe em um estado que não saberia decifrar, e que qualquer tentativa de aproximação resultaria em uma resposta adequada, correta, e completamente inútil. No dia seguinte, ela me perguntou por que eu estava tão cansada. Respondi que não havia dormido bem. Ela disse que eu deveria ter tomado um chá. Com o tempo, comecei a suspeitar que minha mãe também operava sob uma lógica de escassez. Havia nela uma contenção que não era apenas emocional, mas quase física, como se cada gesto precisasse ser calculado para não exceder um limite invisível. Eu a via, às vezes, sentada sozinha, imóvel, e tinha a impressão de que qualquer aproximação poderia desorganizá-la de maneira irreversível.
Mas isso não me impediu de tentar. Na adolescência, minhas tentativas se tornaram mais agressivas. Eu a confrontava, fazia perguntas diretas, exigia respostas que não admitissem evasivas. Você me ama? perguntei uma vez, sem preparação, no meio da cozinha. Ela não pareceu surpresa. Demorou alguns segundos antes de responder, e esse intervalo foi suficiente para que eu percebesse que qualquer resposta já estava comprometida. Claro que amo, disse, voltando-se para a pia. Havia algo naquela frase que não era falso, mas também não era verdadeiro no sentido que eu buscava. Era uma resposta funcional, socialmente adequada, que encerrava a questão sem realmente tocá-la. Eu não insisti. Anos depois, entendi que aquela foi uma das poucas vezes em que minha mãe falou diretamente sobre algo essencial, e que, ainda assim, não conseguimos nos encontrar naquele ponto. Quando saí de casa, nossa relação se reorganizou em torno de uma distância administrável. Telefonemas breves, visitas programadas, conversas que giravam em torno de fatos verificáveis, trabalho, saúde, pequenas ocorrências do cotidiano. Havia, nisso, uma tranquilidade nova, quase confortável. Sem a expectativa de intimidade, evitávamos o fracasso. Foi apenas muito mais tarde, quando minha mãe começou a adoecer, que algo se mudou novamente. A doença introduziu uma espécie de desordem no seu comportamento. Ela passou a esquecer coisas simples, a repetir histórias e a perder o fio das frases no meio do caminho. No início, isso me irritava. Havia algo de profundamente desconcertante em vê-la falhar justamente naquilo que sempre fizera com precisão, manter o controle. Mas, aos poucos, percebi que essa falha abria um espaço inesperado. Em um desses momentos, enquanto eu a ajudava a se deitar, ela segurou meu braço com uma força que não reconheci. Seus olhos estavam fixos em mim de um modo que nunca estiveram antes. Eu não sabia, disse. Perguntei o quê. Ela não respondeu imediatamente. Parecia procurar as palavras com dificuldade. Eu não sabia fazer melhor. Fiquei em silêncio. Não havia, naquela frase, o pedido de desculpa que eu talvez tivesse esperado em outro tempo. Não havia também uma justificativa clara. Era, antes, uma constatação tardia, quase técnica, de um limite. E, no entanto, aquilo produziu um efeito que nenhuma das nossas conversas anteriores havia produzido. Não senti alívio. Também não senti raiva. O que senti foi algo mais difícil de nomear, a percepção de que, durante todos aqueles anos, eu havia exigido dela uma forma de presença que talvez nunca tivesse estado disponível. Isso não reescrevia o passado. Não tornava a infância menos árida, nem preenchia os vazios que haviam se acumulado ao longo do tempo. Mas mudava tudo, de maneira irreversível, a posição que eu ocupava naquela história.
A médica estava sentada diante de mim. A autópsia não começa às sete. Começa antes, no instante em que o corpo já não consegue sustentar a versão de si que vinha repetindo. Há um deslizamento, mínimo, quase imperceptível, e tudo passa a obedecer a outra ordem. Não a da vida, tampouco a da morte. Uma ordem intermediária, instável, onde as coisas persistem sem se fixar. Estou deitada. Não sei há quanto tempo. A maca absorveu meu peso e o devolveu sob a forma de frio. O frio se instala primeiro na superfície, depois avança, encontra passagens, ocupa. Não resisto. Existe uma espécie de aprendizagem na imobilidade, um acordo espesso e quieto entre o corpo e aquilo que o atravessa. Dizem que ainda respiro. Não posso verificar. O ar entra, talvez, mas não se transforma em prova. Tudo o que acontece aqui carece de testemunha. Não há autópsia possível quando o olhar coincide com a matéria observada. Ver por si exige distância, um corte, uma separação que não se realiza. Estou dentro do que deveria abrir. As palavras retornam. Não chegam em bloco. Fragmentam-se, insistem em partes, sílabas que não se completam, restos de frases que perderam o contexto e, ainda assim, permanecem ativas. Não ferem de imediato. Depositam-se. Criam uma superfície paralela, aderida à carne, substituindo, pouco a pouco, aquilo que sustentava o corpo em sua continuidade. Não houve um momento exato. Ninguém pode apontar e dizer foi aqui. A infiltração não admite data. Ela se distribui ao longo dos dias, dos anos, nos intervalos, nas pausas, no que não se respondeu. A ausência não é vazia. Ela contém uma matéria específica, grossa, difícil de dar um adjetivo, que se acumula sem chamar atenção. Minha mãe atravessa este espaço. Não inteira. Em partes. Um caminhar interrompido, um prato colocado sobre a mesa, o som de um nome pronunciado sem direção. Não posso afirmar que esteve ali. Também não posso negar. Há vestígios suficientes para sustentar qualquer versão e nenhum capaz de encerrá-la. Dizem que ela me amava. Dizem de modo tão contínuo que a frase perde peso, torna-se ambiente, algo que se bebe sem notar. Tento localizar este amor, procuro sinais mais nítidos, uma marca, uma evidência que resista ao exame. Encontro o mesmo, superfícies, objetos, o silêncio organizado das coisas que funcionam. O silêncio também tem espessura e ele não é ausência de som, mas contenção. Algo que poderia se expandir e não se expande. Ele ocupa os espaços entre uma palavra e outra, impede a passagem, reorganiza o sentido do que foi dito. Cresci dentro dessa matéria. Aprendi a me mover sem romper sua continuidade. O corpo registra. Mesmo quando a memória falha, há um saber distribuído, inscrito nas repetições, nos desvios automáticos, na antecipação do que não virá. Eu já sabia onde cair antes da queda. O erro se fixou em mim com precisão, um ponto exato onde tudo se repete, onde o impacto se realiza sem surpresa.
Não lembro da dor. Lembro da recorrência. A autópsia, dizem, abre para encontrar causas. Aqui, não há causa isolada. Há camadas. Sobreposições. Um tecido que se forma a partir de pequenas adições, quase invisíveis, que, acumuladas, produzem um efeito irreversível. Procurar uma origem seria simplificar demais. Não houve origem. Houve continuidade.
Escuto passos. Talvez sejam dirigidos a mim. Talvez não. O tempo perdeu sua função de organizar os acontecimentos. As coisas não se sucedem mais. Elas coexistem, comprimidas, disputando espaço dentro de um mesmo instante que não se resolve. A médica ainda não chegou. Ou já esteve aqui. Não faz diferença. Sua função depende de um corte que separa o antes do depois, o vivo do morto, o fato da hipótese. Nada disso se mantém de pé. O corpo não colabora. Ele não se oferece em evidência. Ele resiste, não por força, mas por dispersão. Sinto o cheiro. Não é o da morte encerrada. Há eletricidade ainda, um processo que não conclui. Um cheiro que insiste, que se mantém em estado de quase. Não avança o suficiente para se fixar, não recua o bastante para desaparecer. Quase. A palavra se instala e não termina. Ela suspende algo, interrompe o sentido antes de sua realização. Não afirma, não nega. Mantém tudo em proximidade, em iminência, em atraso. Um corpo quase morto. Uma vida quase vivida. Um amor quase nomeado. Minha mãe permanece aí. Não no passado, não no presente, mas nesse meio que não se deixa ordenar. Uma presença que não se confirma nem se dissolve. Não posso alcançá-la. Também não consigo afastá-la. Se eu disser que a vejo, produzo uma certeza que não possuo. Se eu disser que não a vejo, apago algo que insiste. Então permaneço calada sendo testemunha ocular da minha própria desgraça. Deitada, aberta sem abertura, atravessada por versões que não se estabilizam, aguardando um bisturi que não vem, um corte que não separa, uma palavra que não encerra, enquanto tudo continua, sem fim suficiente, sem forma final, ainda em processo, ainda em curso, ainda…

