Sobre estar presente
Aqui vamos nós, mãe, no oceano sem navios.
Tenha piedade de nós, tenha piedade do oceano, aqui vamos nós.
(Anne Carson, Decreation: Poetry, Essays, Opera)
Hoje, mais cedo, sentada na soleira de um dia semi-frio com chuva no final, sol em seus meados e gente andando apressada, prestei atenção na atividade esquisita de duas formigas no chão da minha casa. Uma delas estava viva, e a outra morta. Era algo estranho, quase perturbador, que me deixou inquieta, observadora. A viva rodeava o corpo da morta e logo pensei no enterro da minha mãe, em seu velório que ensaiava o litúrgico de tão luminoso; os raios solares invadiam a capela por suas janelas enormes e irradiavam as paredes brancas, tornando tudo muito nítido, digno, me permitindo enxergar a verdade que se esconde por trás de diversas camadas sujas de mentiras. A formiga que tinha vida por fim tocou o corpo da que estava morta e começou a carregá-lo sabe-se lá para onde; logo então pensei em Antígona reivindicando dignidade ao corpo de seu irmão. A formiga enfrentava obstáculos enquanto levava o corpo, o caminho não era livre para ela, como não foi para Antígona, como não foi para minha mãe. Subia pela pequena pedra diversas vezes, largava o corpo, movimentava as patas em desespero, talvez pensando no desafio, em como faria, em como seria o depois. Andava sozinha, depois voltava, pegava o corpo novamente e o largava logo em seguida. O chão estava molhado, e isso tornava tudo mais difícil, mas ela insistia, teimava, em razão do gesto de carregar o corpo ser também o próprio sentido de estar viva. Havia nela uma fé sem linguagem, uma força cega que não sabia o que era morte, mas ainda assim tentava cuidar do morto. Suas patas tremiam, desesperadas, e eu quase podia ouvir seu pensamento o que faço agora, o que faço com este corpo? O corpo da outra formiga, inerte, já começava a se misturar ao chão, dissolvendo-se em algo indistinto, como se voltasse ao pó de onde veio. E a viva, uma Antígona em miniatura, teimando contra a corrente da chuva, ainda tentava dar-lhe um lugar. A formiga, então, demorava-se agora em torno do corpo, de modo que o círculo fosse uma forma de pensar. Parecia medir o espaço, calcular o impossível. Eu a observava, e por um instante tive a sensação de que o chão respirava, de que tudo aquilo, a pedra, a terra úmida, os pequenos movimentos, estava unido por um mesmo esforço de continuar existindo mesmo após a morte. Pensei no corpo da minha mãe e em como ele também parecia leve e inalcançável, por mais que estivesse ali, diante de mim, cercada de gente que falava baixo, que fingia compreender a ordem das coisas, mas que no fim não compreendia nada. Logo a formiga erguia o corpo morto e o deixava cair, voltava a tentar, dando ao seu ato uma senso de homilia. Eu via o peso em seus movimentos e me lembrava das mãos que arrumaram o lençol sobre o rosto de minha mãe, aquele lençol de hospital, já com o cheiro da morte, e a forma como alguém ajeitou o cabelo dela, ensaiando um corpo para ser olhado uma última vez. Seria isto possível? A formiga insistia, como eu gostaria de ter feito. As patas finas sacolejavam, os grãos de terra se colavam nelas, o corpo que ela levava já se desfazia em pequenos fragmentos, e ainda assim ela o conduzia, desajeitada, incansável, sem rumo. A chuva engrossava. A água começava a arrastar restos, pequenas folhas, um fio de cabelo. E, no meio de tudo isso, ela persistia, fazendo a morte necessitar de testemunho, alguém que dissesse, ainda que sem palavras, eu vi, eu estive aqui, eu te levei o mais longe que pude. O corpo da minha mãe também foi levado assim, entre mãos cansadas, lenços, flores, e aquele sol indecente que atravessava as janelas, insistindo em iluminar o que devia permanecer em sombra. Às vezes acho que foi esse sol que me fez começar a entender a forma lenta com que o mundo continua, mesmo quando uma parte dele para. A formiga, agora quase imersa na água, tentava subir pela pedra de novo. E quando eu pensei que ela finalmente desistiria, ela ainda se movia, tão pequena, tão obstruída, executando sua tarefa sem fim. A chuva engrossava. As gotas batiam no chão com uma cadência que apagava o som do mundo. A formiga agora estava quase submersa, mas ainda se movia, era uma partícula viva tentando salvar outra já entregue. As duas se confundiam; corpo e corpo, um tentando prolongar o outro. Vi quando ela ergueu a morta pela última vez, as patas tremendo, e por um instante pareceu que conseguiria atravessar a poça, que o esforço teria algum sentido. Mas a água pesava demais, e o corpo escorregou, afundou um pouco, e ela ficou parada, olhando. Não havia desistência ali, apenas um silêncio antigo, o mesmo que paira sobre todos os rituais de despedida. Pensei na minha mãe de novo, no instante em que o caixão desceu. Eu a vi ir embora pela última vez, e o sol continuava implacável, abrindo luz entre as folhas, me obrigando a olhar. As pessoas se dispersavam devagar, com flores nas mãos e frases decoradas na boca fique bem ela está bem melhor agora eu estou do seu lado. Eu fiquei ali mais um pouco. Fiquei como a formiga agora ficava, imóvel, diante daquilo que não se move mais. O corpo da minha mãe parecia menor, quase irreconhecível, mas havia ainda nela uma espécie de presença, algo que resistia a ser nomeado, uma vibração discreta, lembrando a da terra depois da chuva, quando tudo parece ainda vivo por um instante. E então a formiga começou a se afastar. Deixou o corpo encostado na borda da pedra, e seguiu por um caminho que eu não via. Eu me inclinei, tentando acompanhá-la, mas ela desapareceu entre as fendas do chão, e por um momento pensei que talvez tivesse se fundido ao corpo morto, que o carregasse de outro modo, invisível. A chuva continuava. E o corpo da formiga morta, agora sozinho, começava a ser levado pela água, devagar, até sumir também. Olhei para aquele pequeno nada que restava, a marca úmida, o vestígio do esforço, e me perguntei se o luto era aquilo, observar o que desaparece e continuar, feito quem ainda carrega algo, mesmo depois de já ter largado. Minha mãe, a formiga, a chuva, tudo se movia dentro de um mesmo movimento. E eu ali, sentada, observando, era apenas mais um corpo tentando entender o trabalho de carregar outro.

