Via Sacra
Que seja crucificada
I. condenação
deram a ela uma palavra
e a palavra aderiu
não à testa
mas à circulação
indisciplinada
entrou no sangue
e passou a organizar o ritmo
das coisas que vinham depois e depois
e que se repetiriam para sempre em forma
de história não contada de gente que
pouco importa
II. o pátio
o pátio não era espaço
era duração
o tempo ali não avançava
ficava parado no mesmo tic toc tic toc tic toc que a fazia morrer todos os diad
meninas mastigando
o mesmo pedaço de tarde parecendo canibais comendo o próprio destino
ela aprendeu a reduzir o corpo
a caber na fronteira
entre dois olhares
III. primeira queda
disseram você não vai longe
a frase não terminou no ouvido
ela continuou
instalada
feito uma segunda respiração
anos depois
ainda havia dias em que faltava ar
IV. a mãe
a mãe carregava água nos braços
mesmo quando não havia balde
os atos permaneciam
inscritos
uma economia do esforço
rezas curtas
sem promessa
apenas manutenção do dia seguinte
que havia sempre de ser o mesmo
V. travessia
a cidade abriu
não em ruas
mas em exigências
um homem ofereceu o pão que havia acabado de multiplicar
e apresentou a conta junto
ela entendeu
que o mundo não separa
o que sustenta
do que cobra
VI. segunda queda
a madrugada tem um som próprio
ela escutou isso
deitada na pedra
um ruído contínuo
feito um motor que nunca desliga
um pé tocou o dela
não foi violência
foi procedimento
acordar também pode ser uma ordem
VII. verônica
um pano
entregue sem explicação
o tecido guardava uma temperatura
que não era da rua
ela pressionou contra o rosto
e algo se contraiu
uma memória sem imagem
um quase reconhecimento de si própria
VIII. suspensão
houve anos que não se deixam contar
não por falta de fatos
mas por excesso de repetição
dias alinhados
sem hierarquia
tudo igualmente necessário
tudo igualmente dispensável
IX. retorno
o portão do colégio
sobreviveu
ferro não esquece
ela entrou
não mais pela lateral
não mais esperando autorização
agora havia um nome
impresso em documentos
chamaram por ele
em voz alta
professora
a palavra não a fez bem
flutuou
por um instante
sem encontrar lugar no corpo
X. sala de aula
o quadro negro absorvia
o que ela escrevia
sem devolução
os alunos
ocupavam as cadeiras
com a mesma inquietação de antes
ela reconheceu
não os rostos
mas a estrutura
a repetição das posições
ensinou datas
e percebeu
que o tempo oficial
não inclui
certos acontecimentos
e muito menos gente como ela
XI. segunda primeira queda
um aluno riu
sem motivo aparente
o riso percorreu a sala
e tocou um ponto antigo
ela interrompeu a fala
não por dúvida
mas por reconhecimento
há coisas que retornam
não para serem resolvidas
mas para insistirem
XII. a mãe (depois)
a mãe envelheceu fora do tempo
o corpo diminuído
as mãos ainda ocupadas
ela tentou explicar
o trabalho novo
a sala
os alunos
a mãe escutou
e assentiu
não era compreensiva
mas estava feliz porque a filha havia caido na mesmice
de ser o que a cidade permitia
XIII. despojamento
em casa
tirou a roupa do trabalho
com cuidado excessivo
como se retirasse
uma camada que não lhe pertence inteiramente
o corpo por baixo
continuava
o mesmo registro
com chagas, sangue, feridas
ela se viu no espelho e tocou suas cicatrizes
a quem um monstro pode culpar por ser vermelho?
XIV. crucificação difusa
não há madeira
não há pregos
há estadia
o corpo fixado
em narrativas alheias
em registros institucionais
em lembranças que não cessam
ela respira
isso ainda quer dizer algo
XV. morte parcial
certas versões dela
deixaram de existir
a menina do pátio
a jovem da calçada
a professora
não desapareceram
foram absorvidas
XVI. descida
ao final da aula
ela apaga o quadro
lentamente
o pó se deposita
nos dedos
uma matéria leve
que insiste em permanecer
XVII. sepultura aberta
não há fechamento
além do da brevidade
os arquivos não registram
a totalidade
do que ocorreu
ela existe
em fragmentos
dispersos
entre o que foi dito
e o que não encontrou linguagem
XVIII. resíduo
às vezes
ao atravessar o pátio
ela sente
não uma lembrança
mas uma sobreposição de memórias e do próprio corpo
duas temporalidades
ocupando o mesmo espaço
o corpo atual
e o outro
ainda em formação
mas já destruido
XIX. mistério
não houve redenção
nem substituição
apenas uma variação
na posição ocupada
de um lado da mesa
para o outro
o sistema permanece
XX. anotação final
se alguém escrever sobre ela
vai precisar escolher
uma linha
uma versão
uma sequência
mas ela sabe
que a vida não se organiza assim
há sempre
um resto
que não aceita forma
e ainda assim
continua falando falando falando falando
e para sempre faltando

